As células NKT são células bem particulares. Estes linfócitos apresentam um TCR (T cell receptor) com cadeias alpha invariantes (em humanos Valpha24Jalpha28 e em ratinhos Valpha14Jalpha18), associadas com cadeias beta com diversidade limitada. Estas células são designadas como células NKT cónicas ou invariantes. Células NKT expressando outro tipo de cadeias alpha reconhecendo CD1d são designadas células NKT não canónicas.
Este receptor T particular reconhece antigénios de origem lipídica apresentados por CD1d.
Após activação as células NKT produzem citocinas de tipo Th1 e Th2e podem ter actividade citotóxica.
Em doentes com cancro, as células NKT apresentam-se em número reduzido e demonstram actividade funcional atenuada.
Num artigo publidado no jornal Clinical Cancer Research por Webb e colaboradores, estudam os efeitos da ascite do cancro do ovário nas células NKT, baseados na descrição que doentes com cancro do ovário apresentam no seu plasma e ascite valores relativamente elevados de gangliosideo – um tipo de lípido particular que pode ser apresentado por moléculas CD1d às células NKT

A ascite, é uma acumulação anormal de líquido na cavidade peritoneal no abdomem e associada a estados avançados de desenvolvimento neoplásico de certos tipos de cancros da cavidade abdominal como por exemplo cancro do óvario e do estómago e de outros desenvolvimentos patológicos. A ascite é constituida por células tumorais, linfócitos e outros componentes do sistema sanguíneo.

ascite na cavidade peritoneal.
Quando células expressando CD1d foram incubadas com ascites (n = 25) de cancro de ovário durante um reduzido número de horas, foram colocadas em contacto com hibridomas NKT, estes hibridomas demonstram uma redução variável da sua produção de IL-2 (redução de 10 a 95%), embora a mesma ascite tem efeitos variáveis dependendo do hibridoma NKT estimulado. Em adição, tal como é mostrado pelos autores, a inibição é dependente da concentração de ascite usada no tratamento das células apresentando CD1d e variável para cada tipo de hibridoma testado
Em contraste, ascites não cancerosas induzem inibição da produção de IL-2 em apenas 50% dos casos (n = 6). Facto que levanta algumas questões sobre se ascites não cancerosas são também inibitórias sobre as células NKT. O número reduzido de ascites avaliadas não permite concluir claramente a situação.
A inibição da ascite na actividade das células NKT pôde, também, ser demonstrada na produção de GM-CSF, IFN-gamma em hibridomas NKT e celulas NKT isoladas do ratinho e de humanos.
Os autores também avaliaram se o soro dos doentes com ascite de cancro do ovário apresentam a mesma capacidade inibidora da actividade dos linfócitos NKT.
Os resultados apresentados demonstram que o soro destes doentes em contraste com a ascite correspondente não diminui a capacidade dos hibridomas estimulados com células expressando CD1d.
Portanto face a estes resultados podemos concluir que a ascite de doentes com cancro do ovário apresentam um efeito negativo sobre a capacidade das células NKT em produzirem citocinas, em contraste com o soro correspondente que não apresenta a mesma capacidade inibitória.
Uma hipótese pertinente será que a ascite age directamente sobre as células estimulantes que expressam CD1d. Portanto os autores utilizam um sistema de apresentação artificial onde esferas electromagneticas são revestidas de moléculas CD1d associadas a alpha-GalCer. Alpha-GalCer é um super agonista da actividade das células NKT. Nesta situação a incubação das esferas com ascite e posterior co-cultura com as células NKT reduz de novo a sua capacidade de produzir citocinas o que permite concluir que a acção da ascite não afecta o processamento dos antigénios apresentados por CD1d, mas provavelmente afecta a apresentação directa do CD1d ao TCR da célula NKT.
Finalmente, os autores avaliam se a ascite tem uma actividade inibitória especifica unicamente sobre CD1d ou também aplicável a apresentação via MHC classe I. Neste ensaio, linfócitos T restritos por MHC classe I HLA-A*0201 especificos de um peptideo CMV foram estimulados com células T2 apresentado o peptídeo CMV através de HLA-A*0201. Tal apresentação não é afectada pela ascite, ao contrário do que se passa com as células NKT estimuladas com células apresentadoras expressando CD1d tratadas com a mesma ascite. Portanto, a ascite contém componentes que actuam directamente sobre a apresentação de antigénios via CD1d, de uma maneira que sugere ser independente do processamento do antigénio, e actuando muito provavelmente actuando directamente na interface entre CD1d-antigénio-TCR da célula NKT.
Este fenómeno aqui descrito é portanto de interesse, pois a inibição da capacidade estimulatoria de alpha-GalCer é surpreendente, pois trata-se de um ligando de alta afinidade. Trabalhos precedentes já demonstraram que outros lípidos podem inibir as células NKT em modelos murinos – eg. glangliotriaosylceramida. A existência de gangliosideos na ascite de cancro do ovário foi já descrita, pelo estas moléculas podem ser potencialmente os elementos inibidores das células NKT via interacção com CD1d, sendo que estudos que demonstrem como tal fenómeno decorre importante para a compreensão do processo e desenvolvimento de agentes terapeuticos.