Com esta é que eu não contava… o ácido úrico pode impedir a modificação molecular de elementos cruciais para a resposta funcional dos linfócitos T CD8+.
Num artigo recentemente publicado na revista Nature Medicine, um grupo americano demonstra que “myeloid-derived suppressor cells” ou MDSCs (que não são mais do que células imaturas incluindo por exemplo precursores de macrófagos, granulócitos, células dendríticas e células mieloides em estados iniciais de diferenciação e identifiáveis pela presença na sua superfície de Gr-1 e CD11b) impedem a actividade funcional de linfócitos T CD8. Ainda mais interessante, é que a co-cultura embora não afecte a expressão a superficie do marcador CD8, ou do TCR (receptor T), reduz consideravelmente a interacção do ligando correspondente ao TCR - a molécula de MHC (complexo major de histocompatibilidade).
É sabido que estas MDSCs produzem grandes quantidades de radicais de oxigénio. Vai desta, e os autores do artigo avaliam se inibidores específicos destes radicais conseguem dar a volta aos pobrezinhos linfócitos. De maneira bem convincente é demonstrado que radicais de peroxynitrito estão envolvidos no processo de inibição da capacidade funcional dos linfócitos. Uma simples co-cultura MDSC durante 5 horas com os linfócitos, induz a nitrificação da superfície do linfócito durante pelo menos 48h e incapazes de cumprirem a sua função. A nitrificação induz alterações em certos amino ácidos que alteram as ligações eléctricas e electroestáticas de uma macromolecula - como são os casos de CD8 e TCR. Como nota, os autores avaliam a quantidade de linfócitos T CD8 presentes nos gânglios linfáticos de pacientes com cancro da mama ou com tumores da cabeça/pescoço (”head and neck”) que apresentam nitrificação (um valor médio de 15 células/1000 CD3+ CD8+). Dadores nem doença apresentam valores bem mais inferiores (2/1000). Oque demonstra o impacto que este fenómeno porá ter no controlo imunológico destes tumores.
Felizmente há sempre um antagonista nesta peça dramática, e o nosso bem conhecido ácido úrico é capaz de alterar as regras do jogo e contrabalancar a actividade destes radicais recuperando a capacidade funcional dos linfócitos. Os autores mostram que ratinhos vacinados com células dendríticas apresentando um antigénio tumoral bem conhecido (p53) na presenca de ácido úrico, conseguem controlar o crescimento tumoral de um tumor pré-implantado no ratinho, oque não deixa de ser surpreendente.
Já ia-me esquecendo que células dendriticas maturadas com LPS (extracto bacteriano) conseguem reverter a acção destas forças de bloqueio que são as MDCs, oque sugere mais uma vez que os nossos amigos linfócitos quando patrulham o organismo a caça de células tumorais (entre outras células) precisam de se encontram num contexto micro-ambiental bastante preciso e sobretudo sem uma série de factores tumorais e imunológicos para bem funcionar. Se antes pensava-se que os radicais de oxigénio eram provenientes dos tumores, agora, estes diabos que também nos envelhecem, podem ter origem em camaradas do sistema imunológico que em vez de uma actitude positiva impedem o bom funcionamento da actividade funcional dos linfócitos.
Voilá…
Um abraço.
Pedro




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